
A realidade das emoções das crianças sob media protetiva e em isolamento social
O distanciamento experimentado pela sociedade atualmente, devido a pandemia da COVID19, nos aproxima da realidade emocional vivenciada pelas crianças sob medidas protetivas em Instituições de Acolhimento, que sofreram uma ruptura familiar para serem protegidas e cuidadas em seus direitos. O isolamento que hoje serve como medida protetiva contra a pandemia, corre o risco de virar uma lacuna entre os acolhidos e os seus e/ou entre os acolhidos e a sociedade.
Aqueles que recebiam visitas da família de origem, em função do isolamento social, mesmo que momentaneamente e de forma circunstancial, já não podem mais manter o laço familiar existente. Os apadrinhados, que suspensos do seu pertencimento familiar e ansiando por vínculos afetivos, mantem padrinhos que auxiliam no processo de ressocialização e referencial, também agora não podem seguir com essa aproximação atendendo as medidas protetivas de saúde. Ainda há aqueles que seguem em processo de aproximação para a adoção que verbalizam e tem sob a sua ótica que o vírus é uma punição e que a sua permanência resulta na ampliação do tempo que levarão para estar com suas novas famílias. Independente da sua forma de interação e relacionamento, pode-se afirmar que instalou-se no contexto de acolhimento uma dor dentro de outra preexistente.
A rotina de uma Instituição de acolhimento é bastante intensa com as ações e voluntariados, cheia de caras novas, eventos novos, presentes e surpresas. A partir do momento em que essas distrações e o relacionamento com os seus cessam, que as atividades extracurriculares deixam de acontecer e que o ambiente escolar e o residencial passam a ser o mesmo, as dificuldades aumentam e emerge a necessidade de novas estruturas, habilidades pedagógicas especializadas considerando os déficits de aprendizagem, bem como ampliação nas fermentas lúdicas para estimular o desenvolvimento.
Com suas emoções e perdas as crises de ansiedade e de agressividade são potencializadas pelo afastamento, as crianças se aproximam de suas lacunas emocionais e trazem cada vez mais sentimentos negativos aflorados e considerando que criança não consegue expor de forma oral suas emoções, nos deparamos com todo tipo de comportamento desafiador, opositor ou depressivo.
Sabe-se que o isolamento é a melhor medida na tentativa de retardar o avanço do COVID-19 evitando um colapso no sistema de saúde, mas não podemos ignorar o fato de que as crianças são acostumadas ao contato físico e podem encarar o afastamento temporário como uma perda e conhecendo a realidade de crianças em acolhimento, essa provavelmente não é sua única perda e vindo de uma sequência de rupturas, essa realidade mundial pode afetar ainda mais os indivíduos acolhidos com suas demandas de pertencimento, cuidado e afeto.
A experiência com vida é o que constrói o indivíduo que por sua vez constrói a sociedade, criticando, ocupando, estabelecendo, por isso é importante permitir às crianças a interação nesse processo de reclusão, conscientes dos fatos e de que seu papel não é irrelevante, mas sim fundamental para garantir uma organização social futura saudável e participativa.
Muito além de todas as medidas necessárias dentro da instituição para conter a propagação do vírus, é importante pensarmos nos cuidados relacionados à equipe, cuidadores, profissionais, enfim pessoas que de alguma forma atuam nesse contexto e estão em um momento de crise, pessoalmente afetados pela situação, e profissionalmente pensando em nova configuração com todas as crianças em tempo integral dentro de casa, sem poder sair ou receber visitas.
Compreendemos e buscamos como essencial a manutenção do lugar de escuta e reflexão para a equipe e principalmente para as crianças acolhidas que além da organização de rotina com novas atividades para elas, também precisam ser incluídas em conversas.
Por Andrea Bomfim – Psicóloga do Acolhimento Institucional ACRIDAS.