O Setembro Amarelo é uma campanha que busca promover a conscientização da prevenção ao suicídio e a valorização da vida. Em 2003, a OMS (Organização Mundial da Saúde) oficializou a data 10 de setembro como sendo o Dia da Prevenção ao Suicídio, mas a campanha apenas chegou ao Brasil em 2015.
Já são 11 anos de campanha, mas a notoriedade que ela vem tomando alcançou maiores proporções nos últimos tempos, em diferentes âmbitos, ganhando espaço nas mídias, redes sociais e no cotidiano de muitas escolas, empresas e afins.
Acredito eu, que o fato da saúde mental ter tomado um espaço mais considerável na nossa vida, fez toda essa diferença. Felizmente, fazer terapia, ter atendimento psiquiátrico, fazer uso de medicações e buscar o bem-estar emocional vêm se desmistificando aos poucos.
Apesar disso, a resistência em pedir ajuda ainda acontece. Nem sempre aquele que sofre consegue se mostrar fragilizado ou até acredita que a sua dor é importante o bastante para ser compartilhada. Mostrar-se vulnerável é difícil, ainda mais quando você nem sempre sabe como fazer isso.
Antes de tudo, vamos ressaltar: toda dor importa para aquele que a sente. Ela dói, seja grande ou pequena, dói. Portanto, não tem como medir sua dor por aquilo que o outro viveu/vive. Só você sabe como se sente.
Talvez seja por isso que grande parte das frases que envolvem a campanha do Setembro Amarelo tragam consigo o imperativo FALE.
E realmente, como muitos dizem, as palavras são mágicas.
É falando que a gente se organiza, se comunica, faz laço, resolve dificuldades. É a partir daí que expressamos nossos sentimentos, que conseguimos (às vezes) dar nome às nossas dores, que pedimos ajuda e, principalmente, conseguimos nos ouvir. Falar é sempre uma solução eficaz. As palavras organizam e são sempre necessárias.
Mas, para aquele que fala, é preciso que haja também aquele que escute.
Você já parou para pensar se está disponível para ouvir? Ou melhor, você realmente consegue escutar a dor do outro sem confundi-la com a sua? Consegue colocar legitimidade naquilo que te trazem?
Talvez essa devesse ser a outra frase principal da campanha: escute sobre isso.
Escutar parece simples para a maioria das pessoas que não possui alguma limitação física, mas não é. Porque, dependendo daquilo que nos é dito, entender o que se escuta é um dilema.
Como diz o educador e cronista Rubem Alves:
“Sempre anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil.”
Escutar é disposição. Escutar, acolher e não julgar requer ainda mais. Não é fácil se desfazer de si, das suas crenças, julgamentos e suposições, até de um “se eu fosse você”. Escutar exige silêncio dos nossos pensamentos, silêncio da gente.
Acreditamos em várias coisas quando alguém nos pede ajuda por questões emocionais, inclusive que deveríamos ter uma solução mágica para tudo, afinal, aquela pessoa nos procurou em um momento de dor e fragilidade, ela precisa que eu resolva isso.
Mas não precisamos, precisamos apenas mostrar que, por mais que essa pessoa tenha suas dores e as sinta sozinha, não precisa atravessar isso sozinha.
Escutar e estar, mais dois verbos importantes para lembrarmos neste Setembro Amarelo. Esteja presente.
Digo estar, porque nem sempre a dor do outro chega claramente com palavras. Na verdade, quem está sofrendo costuma deixar evidente isso em comportamentos, nem sempre em palavras.
Temos a crença de que uma depressão tem uma única cara, que a tristeza se mostra apenas de um único jeito. Mas isso não é possível: pessoas diferentes sentem de maneiras diferentes e, o principal: depressão tem sinais e sintomas, mas não tem cara.
Além da tão conhecida tristeza profunda, é preciso estar atento ao desânimo constante, à dificuldade no sono, à dificuldade de lidar com a frustração, ocasionando irritabilidade ou grandes flutuações de humor, perda de prazer em atividades simples, mudança na alimentação (para mais ou menos). Ou seja, é preciso estar atento ao outro.
Lembrando, ninguém age assim porque quer. Querem chamar a atenção? Talvez, talvez precisem dessa atenção até conseguirem elaborar como falar sobre sua dor. Esteja presente para os seus, realmente mostre que a vida deles importa. Às vezes, parece uma frase tão clichê e faz uma baita diferença na vida de alguém.
Esses sintomas/sinais podem aparecer diante de alguma dificuldade da vida, afinal, não somos imunes às dores, lutos, tristezas e fracassos da vida, mas nem sempre todo mundo vai dar conta de lidar e conseguir atravessar isso.
Esteja ali para quem precisa. E lembre-se: você não precisa conseguir resolver para ajudar, você não precisa desvendar todos os mistérios que estão por trás daquela dor que te contaram para ajudar essa pessoa, apenas precisa mostrar que o que ela sente é importante, é válido e precisa desse cuidado.
É como se fôssemos ajudar alguém a atravessar a rua: a gente não precisa saber o que aquela pessoa vai fazer do outro lado, mas, naquela hora, precisamos estar ali, ajudar a chegar até lá. Talvez seja mais ou menos isso. Estar presente, direcionar se for preciso, mostrar que o sinal agora está vermelho, mas tudo bem, já fica verde. Algumas coisas não duram para sempre e precisamos ajudar para que isso aconteça.
Mesmo que você tenha dificuldade de saber como ajudar, os primeiros passos foram dados: escutar e estar. Mas se informar é essencial.
Como foi dito, a campanha do Setembro Amarelo tomou essa notoriedade por falarmos mais sobre saúde mental, e o acesso à informação facilita e muito tudo isso.
Busque saber mais; o suicídio não deveria ser um tabu, por mais que seja tão doloroso pensar que alguém acreditou que esse seria o único caminho a seguir, devemos tentar desmistificar e falar mais, não apenas em setembro.
Se você conhece alguém que tenha alguns sinais de que não anda bem, ou que até já te disse isso, não hesite em acolher, em se informar. Você pode buscar os canais oficiais, como sites do Ministério da Saúde, da ABP – Associação Brasileira de Psiquiatria, buscar informações com o CVV – Centro de Valorização da Vida, ligando no 188; você também pode ir até a Unidade de Saúde mais próxima da sua casa ou CAPS – Centro de Atenção Psicossocial. Felizmente, informação não falta.
Escute, fique, se informe e direcione. Não hesite em acolher quem precisa, mesmo que não saiba exatamente o que fazer, estar com alguém para atravessar todos os percalços da vida é sempre melhor.
Não se sinta inseguro em buscar ajuda, seja para o outro ou para você. Quem sabe, reconhecendo a dor do outro, estando disposto a ouvi-lo, você não percebe que também precisa ser escutado? Quando reconhecemos a fragilidade de algumas situações, reconhecemos que também podemos ficar vulneráveis, mas que podemos ser acolhidos e ajudados.
CANAIS DE ORIENTAÇÃO:
https://www.setembroamarelo.com
Cartilha de como ajudar:
https://a0e38812-554e-49f8-abbd-a0342f167fe7.filesusr.com/ugd/e0f082_e12d4c2ad9a142169d9c3ce1bb5e8df6.pdf
Centro de Valorização da Vida:
https://cvv.org.br/ ou ligue 188
Orientações do Ministério da Saúde:
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio-prevencao
Urgências: Em casos de risco imediato, acione o SAMU 192 ou vá a uma UPA 24h ou pronto-socorro.
Acompanhamento profissional: O auxílio de psicólogos e psiquiatras na rede pública ou privada é fundamental para o tratamento adequado de transtornos mentais associados ao comportamento suicida.
Escrito por Jéssica Karoline de Lara Kafka – Psicóloga – CRP 08/20661
Revisão Lucas Vargas – Publicitário e analista de marketing da ACRIDAS
